Homossexual não praticante

Como já disse em outros posts, tenho um desvio de afetividade (DdA). Não sei se conseguirei ter um relacionamento de longo prazo com uma menina. Não sei se sinto atração sexual suficiente por meninas para me relacionar com elas. No entanto, sei que meu DdA é, digamos, moderado. Ainda que meu desejo sexual esteja voltado predominantemente para homens, minha orientação afetiva como um todo não está. Em contrapartida, há homens cuja afetividade está, como um todo, voltada para outros homens – e, é claro, mulheres que vivem a mesma coisa.

Se, no meu caso, um casamento com uma mulher ainda é (acho) uma possibilidade, há homens para os quais, talvez, essa possibilidade nem mesmo exista. Talvez, para um homem cuja afetividade está exclusivamente orientada para outros homens, o único tipo de relacionamento possível seja o homossexual. Se esse homem for católico, ou, por qualquer outra razão legítima, não considere a relação homossexual uma opção, o que lhe resta é viver o celibato.

Há dois tipos básicos de reação à conclusão acima. O primeiro é o dos leitores que aceitam a conclusão (celibato), mas acham-na difícil, incerta, dura, etc. O segundo é o dos leitores que nem mesmo aceitam a conclusão. Neste post, gostaria de me ater ao segundo tipo. Espero tratar do primeiro em um próximo post.

Então, dirijo-me aos leitores e leitoras que não aceitam que alguém possa “recusar” a própria orientação sexual ou afetiva. Isso pode ocorrer porque discordam – “não há nada de errado com gays, a natureza os fez assim, eles devem ter relações homossexuais” -, mas também pode ocorrer porque simplesmente não entendem – “se um homem sente atração por outro homem, como não dar vazão a essa atração?”. A discordância e a incompreensão estão muito próximas, ça va sans dire.

Não quero polemizar. Não tenho nenhuma autoridade ou moral para julgar quem quer que seja. Como disse Papa Francisco, “quem sou eu para julgar os gays?“. Meu único objetivo é oferecer considerações sobre por que algumas pessoas acreditam que ter relações homossexuais não é uma opção aceitável, mesmo sendo elas mesmas exclusiva ou predominantemente homossexuais. Eu mesmo, certa vez, ao discutir com um amigo sobre o tema, notei que a ideia de um gay não querer levar uma vida gay lhe era incompreensível (e ele não era gay).

Então, o que eu diria a essas pessoas? O que dizer a alguém que acha incompreensível que um gay possa não querer ter relações homossexuais? Bem, eu teria muito a dizer, mas acho que o mais importante a enfatizar é que, ao menos no meu caso, a recusa em ter relações homossexuais é extremamente intuitiva. Ela parte de uma sensibilidade moral. Não desejo ter relações homossexuais pela mesma razão pela qual não desejo cometer adultério, por exemplo. Não estou dizendo que os dois atos sejam iguais, apenas que é a mesma sensibilidade que me faz recusar ambos.

Meu interlocutor poderia indagar: mas em que sentido uma relação homossexual pode ser imoral? Tendo já deixado claro que, para mim, essa é uma questão intuitiva, posso tentar explicá-la melhor. Essa explicação começaria com uma afirmação. Talvez essa afirmação pareça não ter relação com a pergunta, mas espero que, ao final do meu raciocínio, a relação fique clara. A afirmação é a seguinte: o casamento, entendido como uma união conjugal aberta à vida e que dura por toda a vida*, é, potencialmente, a maior expressão, em termos de relacionamentos conjugais, da máxima de que devemos amar aos outros como a nós mesmos. Faço, a seguir, alguns esclarecimentos.

Não estou dizendo que expressões de amor conjugal que estejam fora da definição de casamento dada acima sejam ruins, erradas ou necessariamente menores. Apenas que o casamento, tal qual definido acima, é, potencialmente, a maior expressão de amor conjugal. Senão, vejamos.

Se duas pessoas se conhecem e começam a se amar, podem tomar diversas ações. Digamos que a primeira decisão básica com a qual se defrontam – supondo um casal no mundo de hoje – é se vão ter relações sexuais (com contraceptivos) ou não. É claro que a escolha por ter relações sexuais não é uma evidência última de que essas duas pessoas se amam pouco ou menos do que um casal que optasse por não ter relações sexuais. Porém, de modo geral, parece-me intuitivo que a maior expressão de amor, nesse caso, seria optar por não ter relações sexuais (com contraceptivos).

O problema não é a relação sexual em si. É claro que o sexo é uma expressão maravilhosa do amor entre duas pessoas. O problema são os contraceptivos. O sexo com contraceptivos é, na minha visão, uma expressão de amor claramente inferior ao sexo sem contraceptivos. A razão me parece evidente. Na relação sexual sem contraceptivos, homem e mulher entregam um ao outro sua “semente”. Estão aceitando criar um novo ser, que será uma mistura de ambos. Na relação com contraceptivos, não existe essa entrega. Pelo contrário, o que há é um ato que, embora seja potencialmente a maior entrega possível entre um casal, realiza-se com reservas. “Farei sexo com você, mas não lhe entregarei minha semente”.

Portanto, se duas pessoas se conhecem e começam a se amar, a maior entrega – em termos conjugais – que uma poderia fazer à outra é ter relações sexuais abertas à vida e fazê-lo com a disposição de viver com o cônjuge e com os frutos do amor conjugal até quando necessário. É isso, grosso modo, que é um casamento. Mais uma vez, não estou dizendo que uma relação conjugal que não se dê nesses termos seja necessariamente menor ou pior. Porém, de modo geral, a escolha pelo casamento é, potencialmente, a escolha que melhor realiza a máxima de amarmos uns aos outros como a nós mesmos.

Muito bem. Há uma questão aí que pode não estar clara. E quanto àqueles homens e mulheres cuja afetividade está orientada para pessoas do mesmo sexo? É meu caso e o de muitas outras pessoas. Em resumo e para não alongar demais este post, eu diria que a afetividade dessas pessoas está desorientada. A realização plena do amor conjugal não pode se dar num relacionamento homossexual. Isso significa que relações homossexuais levam à infelicidade? Não necessariamente. Significa que elas devem ser proibidas por lei? É claro que não. Significa que homossexuais são piores do que heterossexuais? Não. Significa, apenas, que relações homossexuais nunca realizarão plenamente o amor conjugal.

Para concluir, essa foi apenas uma tentativa de explicar a um interlocutor imaginário por que, tendo a orientação sexual voltada para homens, não tenho relações homossexuais. Como disse, não escrevi isso como um esforço de proselitismo. Escrevi o post como uma tentativa de dialogar com alguém que estivesse sinceramente disposto a entender minha posição, mas que, apesar do esforço, não conseguisse. Lembro, mais uma vez, que essa tentativa de diálogo é, no fundo, a tentativa de explicar algo que, para mim, é intuitivo. Mas essa não é a única, nem a melhor; é apenas a minha tentativa.

_________________

* A definição de casamento que uso aqui é muito próxima à da tradição católica, mas não é igual a ela. Embora seja católico, não quis utilizar uma definição explicitamente católica, porque ela possui uma dimensão sobrenatural – o matrimônio enquanto sacramento – que pode não fazer sentido para um não católico. Na verdade, embora tenha usado uma definição de casamento como uma relação que dure toda vida, creio que o caráter indissolúvel do casamento só faz sentido se visto de uma perspectiva sobrenatural.

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