O budismo e a identidade gay

Fazendo parte da classe média paulistana, e, mais, daquela parte supostamente intelectualizada, conheço muitas pessoas com aversão à Igreja Católica. A Igreja é vista como uma instituição atrasada, retrógrada, obscurantista, etc. É claro que aqueles que têm um pouco mais de informação reconhecem a importância dela para a história da civilização ocidental. Porém, mesmo esses não nutrem, em geral, simpatias pela Igreja.

Dentre essas pessoas, os gays constituem um dos grupos mais avessos ao catolicismo. Não todos, é claro, mas muitos deles. Não é difícil de entender o porquê. Ao olhar para a Igreja, muitos gays enxergam uma instituição que lhes nega o próprio modo de estar-no-mundo. É como se ela lhes dissesse: “eu sou contra você”. Isso não é verdade, mas não importa. Sei que essa é a impressão que muitos gays têm a respeito da Igreja.

Se, nos círculos sociais intelectualizados paulistanos, é comum encontrar aversão à Igreja, o mesmo não ocorre com o budismo. Pelo contrário. Nesses círculos, a aceitação ao budismo parece ser oposta à aceitação da Igreja. Para muitos, seria um exemplo de religião – admitindo-se que o termo se aplique ao budismo – tolerante. No budismo, pensam, não há pecado. Todos são bem-vindos. Creio que essa imagem exerce um fascínio especial sobre os gays que mencionei acima, os gays que sentem aversão pela Igreja.

Não escrevo este post para criticar o budismo. Na verdade, até que simpatizo com ele. Ceteris paribus, acho melhor um gay ser budista do que não sê-lo. Porém, não posso deixar de notar o que julgo ser um desconhecimento, presente nesses círculos intelectualizados de classe média, sobre as implicações do budismo. Penso especificamente na questão dos homossexuais.

No limite, o budismo não “aceita” a orientação homossexual, assim como o catolicismo não o faz. Li recentemente um texto do site Tzal.org que mostra isso com clareza – e de forma muito melhor do que eu mesmo seria capaz de dizer. O texto parece uma entrevista na qual Padma Dorje responde perguntas sobre a posição do budismo diante do homossexualismo. O texto é extenso, por isso chamo a atenção apenas para o aspecto que mais me interessou.

É claro que a postura do budismo diante da orientação homossexual difere da do catolicismo. Não digo que sejam iguais. Porém, ambas as doutrinas consideram um equívoco a afirmação da orientação homossexual (assim como, creio, ambas consideram equivocada a afirmação da orientação heterossexual, ainda que alguns cristãos conservadores pensem o contrário). Essa frase ilustra bem a postura budista:

Nenhum hábito é motivo de orgulho, e se identificar com os próprios hábitos e propensões é uma forma de sofrimento, em todo caso. (…). As propensões, principalmente as reificadas, são um obstáculo à iluminação, porque há tamanha identificação do eu com algo. Eu SOU isso, ou aquilo, não vai produzir a iluminação da pessoa.

Não se trata de dizer a um gay que ele deve esconder sua orientação sexual, nem que ele deva sentir vergonha dela. Mas, segundo o budismo, ela não deveria ser vista como motivo de orgulho. Não deveria ser afirmada. O mesmo, é claro, vale para outros tipos de identidade: gênero, raça, nacionalidade, etc. Creio que todos, gays ou não, teriam a ganhar meditando sobre isso.

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