Sobre a naturalidade

Um problema que aflige muitos católicos, tenham ou não algum desvio de afetividade (DdA), é o da naturalidade. O esforço por levar uma vida virtuosa pode fazer com que a busca pela virtude deixe de ser natural. Isso, por sua vez, pode criar dificuldades para a vida espiritual, e, por vezes, até afastar-nos de Deus. Digo-o por experiência própria.

No meu caso, a perda da naturalidade teve muito a ver com meu DdA. De modo semelhante, a aceitação do meu DdA me fez, creio, crescer em naturalidade. Para ilustrar, vou contar uma história. Há cerca de dois anos, comecei a sair com uma menina chamada Júlia. Saímos por alguns meses, mas, no fim das contas, decidi terminar a relação. A razão era de duas ordens. Primeiro, não sentia muita atração física por ela. Segundo, ela não compartilhava de minhas “metas” de longo prazo, a saber, casar e ter filhos.

Algumas semanas após o término, saímos para dar uma volta no Ibirapuera. Depois, paramos para tomar um café e conversar. Noto que, apesar de não sentir muita atração por ela, Júlia era uma menina atraente. Naquele dia, estava especialmente charmosa. O passeio e o café foram muito bons. Na verdade, foram bons até demais. Em certos momentos, enquanto estávamos na mesa, um diante do outro, tomando nossos cafés, voltei a sentir algo por ela. Por sorte, já estava tarde, e eu a acompanhei  até a avenida, chamei um táxi e ela foi embora. Despedimo-nos e eu voltei para casa de bicicleta.

Em algum momento daquela noite, uma tentação me atingiu. Converti-me ao catolicismo com mais ou menos 20 anos (hoje tenho quase 30). Posso dizer que, de toda minha vida pós-conversão, essa foi, talvez, a provação mais difícil pela qual passei.

Qual foi a tentação? Pouco depois de me despedir de Júlia, não lembro exatamente quando, fui acometido por um sentimento estranho. Ele se insinuou de modo sutil, mas, pouco a pouco, dominou-me completamente. O sentimento era como uma voz que me dizia: “Júlia é uma menina ótima e linda, como, aliás, tantas outras que você já conheceu. Ela gosta de você. A única razão pela qual a relação de vocês não deu certo é porque você não se sente atraído por ela. E isso acontece porque você é gay.”

Essa voz começou a me atormentar quando, ao me despedir de Júlia, dei-me conta de algo que já havia sentido com outras mulheres antes. Por conta do desvio de afetividade ao qual aludi, é comum que a atração física que eu sinta por mulheres seja limitada. É uma sensação estranha. É como se eu estivesse diante de um objeto e soubesse que o que sinto por esse objeto é um desejo incompleto, um desejo insuficiente.

Encontrei-me com Júlia em uma segunda-feira (acho que era um feriado). Ao longo da semana, vivi dias de verdadeira escuridão espiritual. As manifestações sensíveis da graça – aquele sentimento de bem-estar que sentimos quando sabemos estar cumprindo a vontade de Deus – acabaram. Dizer que, ao longo daquela semana, minha vida espiritual se tornara árida, seria pouco. Ela se tornara uma verdadeira noite no deserto. Senti um terror imenso. Tudo em que julgara acreditar nos últimos anos parecia, agora, falso. Deus, Jesus Cristo, a Igreja, as virtudes, tudo isso me parecia uma grande farsa criada por mim para esconder de mim mesmo minha orientação homossexual. Já começava a imaginar como meus conhecidos receberiam a notícia de que eu, até então um católico convicto, “saíra do armário”. Meus amigos agnósticos iriam rir. Meus amigos cristãos ficariam abalados. As consequências seriam grandes.

No entanto, naquela mesma semana, tarde da noite, enquanto voltava de carro para casa, tive uma “luz” inesperada. Pensei: ora, supondo que isso seja verdade, isto é, supondo que, de súbito, descobri que meu desvio de afetividade é muito maior do que eu supus nos últimos dez anos, por que minha fé estaria necessariamente em xeque? Se essa “voz” que se insinuou em minha consciência diz a verdade, se essa voz é boa, então por que ela quer colocar em xeque não apenas minha devoção a Deus, senão também minha tentativa de praticar virtudes humanas como a justiça, a fortaleza e a castidade? Por que essa voz quer que eu desista de tudo o que fiz nos últimos anos?

Acho que esse foi o início de minha vitória contra aquela tentação. A partir daquele momento, consegui enxergar as coisas com mais frieza e, como um médico, fazer uma avaliação meticulosa do que eram aqueles impulsos se digladiando em minha consciência.

Por que contei esta história? Porque essa, entre tantas outras, foi uma das histórias que me fizeram aceitar meu desvio de afetividade. Por “aceitar”, quero dizer apenas reconhecer o tamanho do problema e estar em paz com isso. É claro que ainda estou sujeito a tentações como as que descrevi acima. Como se diz, as tentações só acabam quando nossa vida acaba. Porém, é mais fácil lidar com elas quando já reconheci que, sim, meu DdA existe, é real, tem proporções consideráveis e pode ser um problema para um relacionamento. Mas, ora, diante do infinito, o que isso importa? Talvez eu não consiga casar e ter filhos. E daí? Posso muito bem reconhecer este fato e aceitá-lo; ele não tem nada que ver com minha fé.

Mas é importante aceitarmos quem somos. E aqui entra a naturalidade. Não discutirei neste post a “cura gay”. Apenas creio que, para católicos, sobretudo aqueles com algum tipo de desvio de afetividade, a naturalidade é muito importante. Isso significa aceitar nossas limitações e viver com elas. A vida virtuosa deve ser buscada, é claro, mas com leveza e tranquilidade (o que não significa falta de empenho, nem relaxamento moral). É triste e lamentável que um católico homossexual se desespere e se afaste de Deus. Mas isso não significa que sua única opção seja “curar-se” do homossexualismo. Pelo contrário. Creio que isso, sim, pode gerar muito desespero e, no fim das contas, afastamento de Deus. Viver a naturalidade, neste caso, seria manter a calma e buscar crescer em vida interior, qualquer que seja sua orientação sexual. Se, ao fim e ao cabo, sua única opção for algum tipo de “unchosen celibacy“, não se preocupe. Você não está sozinho(a).

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3 thoughts on “Sobre a naturalidade

    • Mateus Silva says:

      Caro Nox,

      Tudo bem? Essa é uma questão difícil, como você bem deve saber. É difícil encontrar um vocabulário satisfatório nesse campo. Para algumas pessoas – cristãos praticantes heterossexuais, p.ex. -, o uso do adjetivo “gay” pode dar a entender uma aceitação da prática homossexual. Para outras – homossexuais, p.ex. -, termos como “desvio” ou “desordem” são desrespeitosos e, até, discriminatórios. Embora prefira me referir a mim mesmo como tendo um desvio de afetividade, não tenho problemas em aceitar as autodefinições que meus interlocutores prefiram.

      Obrigado pela indicação do livro. Não conhecia, mas fiquei interessado.

      Paz,
      Mateus

      • O melhor desse autor é que ele não é nenhum progressista que procura pensar fora dos parâmetros da fé católica, ou seja, como se não existisse a Sagrada Escritura, a Tradição e o Magistério.

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