Pode um gay deixar de sê-lo?

A pergunta que dá título a este post ganhou um status importante na atual Kulturkampf. Embora a questão já esteja há tempos em relevo nos EUA  e em outras democracias ocidentais, ela vem ganhando destaque também no Brasil. A nomeação do pastor Marcos Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), bem como a polêmica envolvendo o PDC 234/2011 (equivocadamente rotulado de “projeto da cura gay”),  fizeram com que a questão sobre se um gay pode deixar de sê-lo adquirisse importância no debate público nacional. Dada, pois, a importância do tópico, sobretudo para aqueles interessados no debate sobre a orientação homossexual, gostaria de dedicar a ele algumas linhas. Adianto que o tema é muito complexo e que meu objetivo não é senão o de oferecer uma breve reflexão. Espero tratar mais dele em posts futuros.

Para começar, seria interessante explicitar qual é, do ponto de vista científico, o atual estado da arte sobre a questão. Sei que a ciência não é neutra. Sei, também, que poucos assuntos são tão ideologicamente distorcidos como este. No entanto, por mais suspeitas que possamos ter sobre a veracidade das fontes – mesmo científicas -, acho que o que direi agora não é muito controverso. É o seguinte: até onde sei, não existem evidências de que a orientação homossexual seja causada por fatores genéticos, anatômicos (diferenças no hipotálamo, p.ex.) ou hormonais. Parafraseando Navarro e Vicente (2010), “no es posible afirmar que existan ‘marcadores’ biológicos de la inclinación sexual hacia el mismo sexo” (p. 358). Isso não significa que possamos excluir para sempre a possibilidade de ela ser causada por algum desses fatores. Apenas que, até hoje, a pesquisa científica não encontrou nenhuma evidência consistente de que eles causem (ou estejam muito correlacionados com) a orientação homossexual.

Se ainda não sabemos qual a relação entre os fatores acima e o homossexualismo, creio haver um pouco mais de segurança sobre a importância de fatores psicológicos e ambientais. Em particular, parece haver uma correlação forte entre a inclinação homossexual e a dificuldade de identificação do homem com seu pai – ou da mulher com sua mãe (Op. cit., p. 360). Essa dificuldade provocaria um “desapego defensivo” do próprio sexo. Notem, porém, que falei na existência de uma correlação forte, e não de uma relação causal. Embora estudos sobre fatores psicológicos tenham tido pouco mais sucesso do que os estudos sobre fatores genéticos, anatômicos e hormonais, ainda assim os avanços não foram grandes, e, até agora, não contribuíram muito para melhorar a vida de indivíduos que se sentem desconfortáveis com sua orientação homossexual.

Talvez a pesquisa científica traga alguma luz sobre a possibilidade de um gay deixar de sê-lo. No entanto, ainda que a ciência consiga resultados consistentes, a forma pela qual ela chega até o grande público é incerta. Mais do que isso, ressalto mais uma vez: a ciência é sempre enviesada. Se duvidam, basta ver como são compostos os departamentos de Psicologia, Saúde Pública, Epidemiologia, Demografia, Sociologia, Antropologia, etc. etc. O número de simpatizantes do movimento gay – ou de alguma teoria pós-moderna de gênero – é muito maior do que o número de religiosos praticantes, ou mesmo daqueles que esposam uma visão um pouco menos esquerdista. Não concordo com esses chavões conservadores de que “a universidade brasileira foi tomada pelo marxismo” e coisas do tipo. Mas é difícil deixar de notar o forte viés pró-movimento gay nesses departamentos. Então, a ciência avança a passos miúdos, e, mesmo assim, tal avanço é sempre visto com cautela, seja porque não se confia nos autores dos estudos, seja porque eles são claramente ideológicos.

Por conta disso, minha opção é por oferecer um relato de caráter pessoal. Assumindo que a pesquisa científica encontrou poucos resultados consistentes, e que, de todo modo, eles devem ser vistos com alguma cautela, um relato pessoal pode, em certo sentido, oferecer mais do que uma discussão acadêmica. Para quem já leu outros posts deste blog, deve ser claro também que, embora eu seja católico ortodoxo, não me defino como “conservador” ou coisa que o valha (porque, para mim, a doutrina católica não se deixa apreender por nenhum dos lados da “guerra cultural”).

Minha resposta à pergunta que dá título a este post seria: “Depende”. Refletindo sobre meu próprio caso, confesso não saber se minha orientação sexual mudou e, se o fez, até que ponto. Como já disse em outros posts, tenho um desejo predominante, mas não exclusivamente homossexual. Porém, minha afetividade como um todo é mais hetero do que homossexual (ou seja, ao fim e ao cabo, sinto mais atração afetiva por mulheres do que por homens, ainda que homens me atraiam mais fisicamente). Não sei se fui sempre assim. Sei que, em um momento de minha vida, namorei um ano com uma menina por quem eu sentia considerável atração sexual. Esse namoro me fez pensar que minha orientação sexual tivesse sofrido uma mudança. No entanto, hoje acredito que essa mudança não ocorreu de fato.

O que me incomoda na defesa da possibilidade de mudança de orientação é que, seja ou não verdade, ela pode causar muita angústia e sofrimento psíquico. Acredito que milagres possam ocorrer, e que, assim como uma pessoa pode deixar de ser cega, ela também pode sofrer uma reorientação sexual radical. Porém, milagres não ocorrem com frequência. Por uma questão de prudência, não podemos pautar nossa vida ordinária sobre a expectativa de um milagre dessa magnitude. Não acho que seja saudável para um jovem gay pensar “muito bem, sou totalmente gay hoje, mas vou fazer terapia reparativa e, daqui 6 anos, serei hetero, e então vou casar e ter filhos”. Não. Não é prudente esperar por uma mudança drástica na orientação sexual.

Creio que, de modo geral e desconsiderando eventos cuja ocorrência beira a irrelevância estatística, um indivíduo predominantemente gay com mais de 30 anos nunca vai deixar de sentir alguma atração por homens. Digo “com mais de 30 anos” porque há evidências de que mudanças na orientação sexual são mais comuns na adolescência, mas tendem a sê-lo menos com o passar dos anos. Presumo que, com 30 anos ou mais, a estrutura afetiva do indivíduo esteja mais ou menos definida, havendo menos espaço para mudanças desse porte.

A afirmação de que indivíduos predominantemente gays com certa idade nunca vão deixar de sentir alguma atração homossexual significa um “sim” ou um “não” à pergunta sobre se um gay pode deixar de sê-lo? Não sei. É por isso que respondi “depende”. Por um lado, significa que “não”, pois esse indivíduo nunca vai deixar de ter algum tipo de desejo homossexual. Mas em que sentido tal afirmação pode significar (ou conduzir a) um “sim”?

A afirmação que fiz não contraria uma outra afirmação, a saber, a de que algum tipo de mudança, ainda que limitada e contingente, é, sim, possível. Creio que ela pode ocorrer principalmente por conta de uma mudança em nossa cosmovisão ou sistema de crenças. Isso, por sua vez, muda o que queremos querer. Minha conversão à fé católica, por exemplo, alterou profundamente minha forma de ver o mundo. Por consequência, meu sistema afetivo também foi alterado. Não sei com precisão o tamanho dessa mudança, mas sei que ela ocorreu. Hoje, a ideia de estar com uma mulher e constituir uma família é, para mim, extremamente desejável, e sei que isso afeta o modo como me relaciono com as pessoas. Minha conversão não apagou em mim o desejo sexual por outros homens (que ainda julgo ser predominante), mas, de um ponto de vista afetivo, aumentou meu desejo por uma mulher.

É claro que essa mudança limitada à qual me referi pode não ser suficiente para que se diga do indivíduo que a sofreu que ele não tem mais um desejo homossexual predominante. Pode ser que a mudança, em si, tenha um impacto desprezível em seu desejo sexual. Porém, o reconhecimento sereno e natural de que a inclinação homossexual é desordenada permite que esse indivíduo busque a santidade no celibato, de forma semelhante a um heterossexual. Ele pode, também, casar-se com alguém que entenda e aceite sua situação (é o que alguns chamam de mixed orientation marriage).

Um homem nessa situação, ainda que não tenha deixado de ter desejos homossexuais, pode, no sentido específico aqui descrito, deixar de ser gay. Sei que isso vai incomodar muitos gays que discordam do que eu disse. Mas, se um homossexual não se define como gay, não se enxerga como gay, não pratica (nem quer praticar) um modo de vida gay, e está decidido a viver o celibato ou casar com alguém do sexo oposto, seria correto afirmar que ele ainda é gay? Uma resposta afirmativa a essa pergunta só poderia se basear nalgum pressuposto antropológico último segundo o qual nosso desejo sexual define o que somos. Seja verdadeiro ou não, esse pressuposto não é falseável. É, antes, uma crença.

___________

Referências:

Navarro, Javier S.; Vicente, Juan Carlos (2010). “Dificultades en la Orientación Sexual”. In: Cabanyes, Javier; Monge, Miguel A. (eds.). La Salud Mental y Sus Cuidados. Navarra, EUNSA.

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