A Polêmica entre Austin Ruse e os New Homophiles

Há, nos Estados Unidos, um número crescente de gays católicos se engajando no debate público. Suponho que isso não seja motivo de espanto. Havendo mais de 70 milhões de americanos católicos, é natural que um percentual desse total tenha uma orientação homossexual. Dada, também, a saliência que o debate sobre a homossexualidade e os “direitos gays” vem ganhando nos últimos tempos, é natural que esse grupo seja levado a se manifestar. E sendo um sub-grupo marginalizado tanto por gays, quanto por católicos, é compreensível que ele procure, por assim dizer, marcar posição. De minha parte, acho isso bastante saudável. Ocorre que essa posição vem ganhando relevo e gerando debates interessantes. Um debate, em particular, chamou-me a atenção. Vou resumi-lo aqui, dando, sempre que cabível, minha própria opinião sobre a questão.

Em dezembro de 2013, Austin Ruse publicou um texto na revista Crisis intitulado The New Homophiles. O sr. Ruse é presidente do Catholic Family and Human Rights Institute. Seu texto é, de certo modo, uma descrição e avaliação do que ele alcunhou de New Homophiles, um grupo de amigos gays (mas nem todos) e católicos que, no geral, têm um nível intelectual acima da média – creio que a maior parte tem graduação e alguns fazem doutorado – e que vem se posicionando no debate público americano. O grupo escreve regularmente no site Spiritual Friendship.

Segundo o sr. Ruse, os New Homophiles

“accept the Church’s teaching that sexual activity can only occur between married men and women. They oppose a redefinition of marriage to include anyone else. They are fine, if that is the right word, with living celibate lives.”

A descrição de Ruse está de acordo com o que pode ser encontrado no próprio site do grupo:

We believe in a traditionally Christian sexual ethic: that God created human beings male and female, and that all sexual intimacy outside of a faithful, lifelong marital union of a man and woman is contrary to His plan.

Até aqui, tudo bem, né? A despeito de sua orientação homossexual, eles parecem ter uma clara compreensão da doutrina católica e de suas implicações.

Mas o sr. Ruse continua:

They [os New Homophiles] do not want to stop being gay; they don’t believe they can or even should. They believe God made them gay so they want to be known as gay and they want the Church to accept them on those terms. And they believe being gay is part of God’s plan and vocation for them.

They believe the Church’s teaching on homosexuality and certainly the way it is often talked about by Christians is highly limiting, often insulting, hardly ever welcoming, and in desperate need of development. They are out to change that with their lives and with their writing.”

Ok. Assumindo que a descrição de Ruse esteja correta (e não sei se está), há três questões principais aqui. A primeira é: (1) eles não querem deixar de ser gays, nem veem por que deveriam, etc. A segunda é: (2) eles acham que os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade precisam ser revistos. A terceira é: (3) eles acham que a forma como cristãos tratam a homossexualidade deve ser revista. Vejamos cada ponto em separado.

Sobre o ponto (1), é preciso ter cuidado com a afirmação de Ruse. Até onde sei, todos os membros dos New Homophiles vivem de acordo com a doutrina da Igreja, inclusive no que diz respeito à ética sexual. Como o próprio Ruse afirmou, eles não têm relações homossexuais. Então, o que significa dizer que “eles não querem deixar de ser gays”? Essa questão é bastante profunda e seriam necessários vários textos para respondê-la. Para os interessados em uma resposta longa, vale a pena ler este texto aqui. Para quem quer uma resposta curta, eu diria o seguinte: diferentemente de outras características (tais como a cor do cabelo ou o tamanho da orelha), a orientação sexual possui uma relação profunda e, em grande medida, ainda desconhecida com a personalidade humana.

Se entendo bem os New Homophiles, o argumento deles seria mais ou menos o seguinte: não dá para dizer a um gay para simplesmente reprimir a parte gay de sua personalidade. Isso seria mutilar uma pessoa. Em vez disso, eles propõem aos gays formas alternativas de lidar com essa característica – que, repito, não é apenas um desvio na orientação sexual, mas algo correlacionado com muitas outras características psíquicas e afetivas. Até onde sei, nenhuma dessas “formas alternativas” atenta contra a ortodoxia católica. Eles sugerem que gays deveriam construir laços profundos de amizade e/ou buscar algum tipo de vazão estética para sublimar sua orientação homossexual. Vale a pena ler os textos deles, e, como já disse, não posso garantir que estou fazendo um retrato fidelíssimo do grupo, mas isso é o que pude depreender a partir da leitura de vários textos do Spiritual Friendship.

Sobre o ponto (2), confesso nunca ter lido nenhum texto deles que defenda de modo taxativo uma revisão da doutrina social da Igreja. Creio que Ruse entendeu mal. Talvez eles gostassem de ver a Igreja falando mais da homossexualidade e orientando os fieis a serem mais caridosos com homossexuais. Talvez eles achem que a Igreja, em seu Magistério, dedica pouca atenção a esse tema. Isso não me parece uma heresia. Quantos católicos mais à esquerda não se sentem insatisfeitos com a suposta pouca atenção que a Igreja dá à desigualdade de renda nos países em desenvolvimento? Quantos católicos direitistas não acham que a Igreja dá atenção demais a esse mesmo tema? Isso é muito diferente de dizer que “O Magistério da Igreja está errado”.

No entanto, em um certo sentido, e com isso chegamos ao ponto (3), entendo o incômodo sentido pelo sr. Ruse. Há, nos escritos dos New Homophiles, a defesa de um certo gay exceptionalism. Os membros do grupo parecem defender a ideia de que homossexuais seriam pessoas especiais, “created and called to play a specific role in our shared humanity“.

É claro que, em algum sentido, tal ideia é verdadeira. Se admitirmos que o amor de Deus por nós é maior do que tudo que conseguimos conceber, e se aceitarmos que tudo, absolutamente tudo em nossa criação é fruto do amor de Deus, então mesmo nossos defeitos (como um desvio de afetividade), estão lá para que, por meio deles, possamos realizar plenamente a vontade Dele. Nesse caso, sim, homossexuais teriam um papel especial a desempenhar na humanidade… Como teriam outros homens e mulheres com diferentes características.

No entanto, a ideia de reforçar e positivar a identidade gay me causa um desconforto, algo que, suponho, o sr. Ruse também tenha sentido. É um desconforto que sinto muitas vezes ao ler os textos do Spiritual Friendship. Embora considere alguns dos seus textos excelentes, vejo em outros uma reificação da orientação homossexual que me desagrada. Mas, que fique claro, não consigo ter uma opinião clara sobre isso. Por um lado, acho que a identidade gay deve ser abandonada (como dei a entender neste post aqui). Por outro, entendo o mal-estar dos New Homophiles ao se depararem com cristãos conservadores que não compreendem a relação profunda entre a orientação homossexual e a personalidade de uma pessoa. Entendo que eles se sintam desrespeitados quando lhes insinuam que deveriam extirpar tudo que é “gay” de sua personalidade.

Isso me lembra a alegria que senti quando assumi para mim mesmo que possuía uma orientação predominantemente homossexual. Foi como se um grande fardo tivesse sido tirado dos meus ombros. Que fique claro, defendo integralmente a ortodoxia católica. Vou à missa várias vezes por semana, rezo o terço, etc. Mas não acho que a resposta a uma orientação sexual desordenada seja a simples repressão ou a tentativa de ignorar o problema.

A polêmica ainda não terminou. O sr. Ruse publicou mais dois artigos sobre os New Homophiles (aqui e aqui). Eles, por sua vez, escreveram de volta (aqui e aqui). Gabriel Blanchard, do Mudblood Catholic, escreveu outra resposta a Ruse na própria revista Crisis (aqui). No geral e para concluir, creio que o sr. Ruse poderia ter sido mais caridoso em seus textos. Sei que ele foi bem intencionado, e, como disse, compartilho de parte do incômodo dele. Porém, acho que, ao fim e ao cabo, o trabalho dos New Homophiles é muito mais positivo do que negativo e deveria ser prezado por isso. É preciso lembrarmos da dimensão apostólica da fé cristã. Nesse sentido, sei que Ron Belgau e seus amigos têm muito mais capacidade de dialogar com homossexuais do que o sr. Ruse, cujo discurso, sem dúvida, afastará qualquer gay não cristão. Em que pesem minhas reservas sobre o excepcionalismo gay, creio que os New Homophiles realizam um grande bem com seus textos, e, principalmente, com seu testemunho de vida.

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