To infinity and beyond

Faz algumas semanas desde a última vez que atualizei o blog. Disse que ficaria duas ou três semanas sem escrever, mas acabei ficando mais de um mês. É verdade que parte da ausência se explica por problemas profissionais. Mas, nas semanas restantes, fiquei sem escrever por outras razões. Não é que não tivesse assunto. Pelo contrário. Tenho-os, e muitos. O problema reside, talvez, numa questão de prioridades.

Este blog começou com um duplo objetivo. Em primeiro lugar, era um canal por meio do qual eu poderia “me livrar” de certas angústias sobre fé e orientação sexual — isto é, sobre como viver bem a fé católica tendo um desvio de afetividade. Em segundo lugar, era uma tentativa de apresentar um testemunho — o meu, no caso — de que, apesar de todas as dificuldades, é possível viver a fé católica de modo integral mesmo tendo uma orientação predominante, mas não exclusivamente homossexual.

No primeiro objetivo, fui bem-sucedido. De fato, escrever neste blog algumas das questões que me incomodavam — e, para escrevê-las, analisá-las com calma — me fez muito bem. O simples esforço de enunciar nossos problemas e explicá-los, ainda que seja para alguém que não conhecemos, ajuda-nos a os entender melhor.

Se o primeiro objetivo foi exitoso, não estou tão certo quanto ao segundo. Como já disse diversas vezes, apesar de ter um desvio de afetividade, busco viver a fé católica integralmente, o que significa, também, viver a virtude da castidade. Trata-se de uma luta difícil, sobretudo para aqueles(as) atraídos(as) por pessoas do mesmo sexo. Espero que meu testemunho possa ter dado força a alguns(as) leitores(as), do mesmo modo que o testemunho de tantas outras pessoas me ajudaram (Joseph Prever, Ron Belgau, etc.).

Espero, principalmente, que o que escrevi aqui tenha, de alguma forma, ajudado as pessoas a se aproximarem de Deus. Tenho medo de ter escrito algo impróprio, e, se — por favor — alguém achar que alguns dos posts do Framboise & Grenade contraria algum aspecto da doutrina da Igreja, peço que me avise e me o aponte. Terei prazer em retificá-lo. Tenho contato apenas com alguns poucos leitores do blog, então acho que nunca poderei saber ao certo se o testemunho contido aqui ajudou a maior parte ou não.

Disse, acima, que  fiquei mais de um mês sem escrever por uma questão de prioridades. Explico-me. Há alguns meses, conheci uma garota. Ela é muito especial. Isso vai parecer meio cliché, mas sinto por ela algo que nunca senti por ninguém antes. Nós nos aproximamos bastante nos últimos tempos. Quero tentar um relacionamento com ela, apesar de todas as dificuldades que meu desvio de afetividade pode trazer. Por conta de nosso relacionamento, passei a ter menos tempo. Na verdade, venho gastando tempo demais no computador. Meu uso da internet é um pouco exagerado e boa parte do tempo que gasto nela é usado para acessar blogs de cristãos homossexuais, além do meu próprio.

Não é que iniciar um relacionamento com uma garota seja um impedimento para continuar este blog. Creio que não é, muito pelo contrário. Muitos cristãos de orientação homossexual vivem o que chamam de mixed-orientation marriage, isto é, um casamento no qual um dos dois é homossexual (dois bons exemplos são Tommy Prince e Melinda Selmys). Assim, creio que não apenas um relacionamento não deveria me impedir de escrever aqui, como poderia até me dar ainda mais assunto para escrever.

Em contrapartida, um relacionamento exige tempo. Espero que ninguém entenda isso como um “ah, vocês sabem, agora que eu namoro, não tenho mais tempo para escrever em blogs. Mas, vocês aí, sozinhos, continuem a ler e escrever.” Eu adoraria ser alguém disciplinado para trabalhar, fazer pós-graduação, cultivar amizades, ter um relacionamento E manter um blog atualizado. No entanto, tenho sérios problemas com procrastinação. Não sei aproveitar o tempo. E, olhando para as atividades que me consomem tempo, a manutenção do blog me parece a menos prioritária entre elas, sobretudo porque, como disse, nem mesmo sei se este blog faz mais bem do que mal.

Não pretendo parar completamente de escrever, mas devo fazê-lo com bem menos frequência. De todo modo, estarei sempre disponível para conversar. Basta mandarem uma mensagem para matsil 2001 [at] gmail [dot] com.

Gostaria de concluir reiterando a importância da entrega de si. Se você, que está lendo isso, é cristão – ou tem qualquer outra crença – e acredita que não deve ter relações homossexuais, isso é ótimo. Não perca as esperanças. Acredite, há MUITA gente em situação semelhante. Se você for católico, procure um padre para conversar. Alguns sacerdotes têm uma visão mais “dura” sobre o assunto e acham que todo gay católico deveria buscar “tratamento”. É uma questão complicada e não quero discuti-la aqui, mas é importante ressaltar que nem todo padre pensa assim. Muitos padres cuja adesão à ortodoxia é completa não defendem a “cura” para os gays. Portanto, se você é gay, católico e acha a ideia de uma “cura” algo extremamente ofensivo — entendo você –, não desista. Continue procurando um padre com uma visão mais próxima à sua. Se você for evangélico, procure um pastor da sua igreja. Se você for agnóstico, procure um amigo ou amiga.

Terapia também ajuda. Comecei a fazer terapia há alguns meses e tem me feito bem. Demorei para encontrar um terapeuta bom e que compartilhasse minimamente das minhas crenças. É importante encontrar um terapeuta que aceite sua religião e não a considere um sintoma a ser tratado. Infelizmente, essa foi minha experiência com alguns deles.

Mas, como eu dizia, a entrega de si é muito importante. Estamos neste mundo para sair de nós mesmos. No caso dos cristãos, não basta apenas sair de nós mesmos: somos chamados a nos entregar a Deus. É nessa entrega que reside a plena liberdade. Termino com um trecho de uma homilia de São Josemaría Escrivá:

“Nada mais falso do que opor a liberdade à entrega de si, porque essa entrega surge como consequência da liberdade. Reparemos: quando uma mãe se sacrifica por amor aos seus filhos, fez uma opção; e, conforme for a medida desse amor, assim se manifestará a sua liberdade. Se esse amor for grande, a liberdade se mostrará fecunda, e o bem dos filhos procederá dessa bendita liberdade, que implica entrega, e procederá dessa bendita entrega, que é precisamente liberdade.

Mas, dir-me-eis, quando conseguimos o que amamos com toda a alma, não mais continuamos a procurar. Desapareceu a liberdade? Asseguro-vos que então é mais operativa do que nunca, pois o amor não se contenta com o um cumprimento rotineiro nem se compagina com o fastio ou a apatia. Amar significa recomeçar a servir todos os dias, com obras de carinho.”

(“A Liberdade, Dom de Deus”, homilia de 10-4-1956)

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